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A Falácia da Normalidade em Tempos Convulsivos

 

Hoje à tarde, enquanto estava na fila do caixa de uma padaria, me deparei com uma situação inusitada: Um casal que esperava exatamente à minha frente na fila estava conversando em alto e bom som sobre a situação de uma terceira pessoa que, até o que entendi, está sem um direcionamento claro na vida (algo monstruosamente recorrente, dadas as presentes circunstâncias). Após entender a natureza daquela conversa, tentei me desconcentrar me atentando ao meu celular. Porém, antes que pudesse ignorar o casal por completo, acabei ouvindo o homem proferir a seguinte fala enquanto saía da padaria:


"Coitadx. Pra não se enquadrar em nada desse jeito, deve ter alguma doença mental mesmo. Nunca vai conseguir levar uma vida normal."


Eis que, ao caminhar de volta para o carro fumando um cigarro como sempre faço, me peguei refletindo sobre a fala do rapaz. Não pelo tom de pena contido em suas palavras, nem pelo preconceito que expôs em relação a pessoas que sofrem de transtornos mentais, nem pela forma reducionista com que se referiu à pessoa em questão e muito menos pela completa falta de contexto aplicado (afinal, estamos num cenário altamente desestruturante). O que me instigou e me fez refletir foi a absoluta falta de ironia com que aquele rapaz remeteu à ideia de uma “vida normal” numa fala que, para todos os efeitos, era altamente reveladora.


Pois o fato é que vivemos num mundo tenso, marcado por dinâmicas e configurações altamente insólitas. Um mundo no qual fórmulas e caminhos considerados seguros para alcançar a tão almejada (e cada vez mais distante) completude existencial têm surgido e caído por terra em velocidade recorde. No qual condutas e convicções têm sido constantemente questionadas, reiteradas e problematizadas, dependendo de visões individuais para ganharem contorno. No qual a mistura de apreensão, frustração e carência têm configurado um zeitgeist que condiciona as pessoas a rotinas que oscilam entre momentos de produtividade obsessiva e escapismo desmedido. No qual a auto-afirmação sobre bases superficiais tem se tornado prioridade e no qual prerrogativas e visões de mundo têm flertado recorrentemente com o unilateralismo e com o antagonismo como resposta para tudo o que é diferente. Na qual a transformação voluntária em simulacros se transformou num status quo e na qual o processo de autoconhecimento (e as intensas problemáticas resultantes) é obstinadamente demonizado discursivamente e substituído por consumo inócuo, truísmos e entorpecimento.


E isso tudo antes mesmo da pandemia.


Vivemos num mundo permeado por indivíduos em crises existenciais, afetivas, psicológicas e espirituais das mais distintas configurações e níveis de intensidade, lutando para alcançar algum semblante de paz interior, estabilidade e auto-diagramação em meio a dinâmicas convulsivas e, honestamente, não vejo a menor sombra de normalidade nisso.


Enquanto retornava para casa, o tempo inteiro pensei na naturalidade com que aquele rapaz citou a tal "vida normal" e acabei retornando a um pensamento recorrente que tenho: Estamos todos profundamente desenquadrados, cada um à sua maneira. Apenas sentimos e reconhecemos isso de formas distintas.

Guilherme Guio
Guilherme Guio
Publicitário por formação, especialista em Comunicação Corporativa e Inteligência de Mercado, é o editor e redator principal do RTC. Atuando como consultor de Marketing Cultural, resolveu dar vazão aos seus arroubos verborrágicos através deste projeto. Também é tabagista compulsivo, cinéfilo inveterado, adepto de audiófilo e dançarino amador vergonhoso nas horas vagas.

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