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Sobre Deixar Alguém Partir

 

Recentemente conversei com um grande amigo sobre a tarefa ingrata que é deixar alguém que você ama partir permanentemente. Sobre o fardo que é deixar alguém partir não por desavença, mas por necessidade. Uma partida que não resultará em esquecimento ou indiferença, mas numa realocação de todo o afeto para o fundo da memória, onde todo o amor ficará eternamente encapsulado numa camada agridoce de melancolia, como uma mosca presa no âmbar.


E, enquanto falava a respeito, percebi que o que mais me soa doloroso acerca deste processo não é a sensação de perda do que é, nem a lembrança do que foi e muito menos os ecos persistentes (e ilusórios) de tudo o que poderia ser. Não. O que realmente me perturba é reconhecer a dimensão de tudo o que não foi dito e nunca será.


E foi assim que eu percebi que deixar alguém que você ama partir é sentir o peso de todos os elogios, todas as piadas, todos os "obrigado por tudo" e "eu te amo" que jamais serão proferidos. É reconhecer o universo de expressão que jamais escorrerá do peito e que ficará fossilizado até ser estilhaçado pelo tempo. É sentir um nó na garganta que jamais será desatado.


Foi daí que eu entendi que deixar alguém que você ama partir é sentir a distância aumentar segundo a segundo e ver um rosto sumir de vista, desaparecendo na imensidão antes que se possa encontrar as palavras certas.

Guilherme Guio
Guilherme Guio
Publicitário por formação, especialista em Comunicação Corporativa e Inteligência de Mercado, é o editor e redator principal do RTC. Atuando como consultor de Marketing Cultural, resolveu dar vazão aos seus arroubos verborrágicos através deste projeto. Também é tabagista compulsivo, cinéfilo inveterado, adepto de audiófilo e dançarino amador vergonhoso nas horas vagas.

1 Comentário

  1. Leonardo, o Norbim disse:

    Me vejo obrigado a comentar aqui, (até pra deixar registrado que perambulo por aqui), que sua sensibilidade, seu aspecto tranquilo de lidar com sentimentos e, mais que isso, dar andamento a eles e não tentar joga-los pra debaixo de algum tapete, sua generosidade de tentar quase que a todo momento entender o mundo e as pessoas, não pra si, ou pra sedar bem mas pra poder passar isso pra alguém, me fazem um cara apaixonado por você, pela sua alma, sua vida! Ser seu amigo é, sobretudo, gozar de muita sorte, sei lá, de muita ventura, graça divina, da vontade de acreditar nisso só pra dizer sabe? Muito obrigado por existir Guilherme Guio!

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