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Sobre Ressignificar Para Seguir Adiante

 

Recentemente conversei com uma grande amiga sobre o momento atordoante no qual um indivíduo se percebe ressignificando uma situação emocional conturbada na qual passou tempo demais, nunca tendo imaginado que ali se encontraria. O momento em que se começa a dar os primeiros passos para, enfim, seguir em frente.


E, enquanto refletia a respeito, me dei conta que a coisa mais complexa inerente a tal momento não é necessariamente o choque oriundo da constatação de que os azedumes que corroem o peito eventualmente deixarão de existir completamente, nem a dor latente que se evidencia a partir do momento em que se contabiliza os aleijões e nem o receio natural da incógnita que o futuro passa a representar. Não.


A coisa mais truncada e apavorante deste movimento é o reconhecimento da dimensão abjeta do sentimento de Horror identitário que tais situações propiciam. O Horror de não se reconhecer e não saber se diagramar, de não encontrar direção ou sentido para si, de não saber o que sentir mesmo constantemente bombardeadx por emoções e pensamentos corrosivamente invasivos, de sentir decepções imensuravelmente doídas que vêm acompanhadas de faltas lancinantes, da perda dos próprios referenciais e das noções sobre a própria constituição, da pervasiva ansiedade que acomete cada segundo e, acima de tudo, de constantemente se sentir insuficiente.


A coisa mais abissal deste processo é o sentimento de Horror que surge do não-reconhecimento de si e do luto por tudo aquilo que não se consegue verbalizar.


No entanto, uma vez passado este Horror (e ele passa), o que surge é a consciência sobre a própria vulnerabilidade, assim como sobre a própria falibilidade e a série vertiginosa de impressões e conclusões subsequentes que tal momento inevitavelmente traz. É a recapitulação automática (e, por vezes, profundamente dolorosa) de toda a situação com outro olhar, enxergando por outro prisma e percebendo tudo de outra maneira. É o momento no qual se inicia processo de reavaliar e rediagramar absolutamente tudo, reconhecer os erros e acertos cometidos, pontuar êxitos e fracassos, perceber as expectativas e projeções realizadas, dimensionar perdas, temer recaídas e, em certos casos, entender que é necessário um pouco mais de tempo e sofrimento até uma superação efetiva.


Eis que concluí algo que agora digo a você, que tirou seu precioso tempo para ler este texto e talvez tenha passado ou esteja passando por momento similar:


Tudo bem se sentir assim.


Tudo bem se sentir vulnerável, desgastadx e temerosx ao longo deste processo. Tudo bem se sentir em choque e necessitar de tempo para digerir o ocorrido. Tudo bem sentir um vórtex de sentimentos conflitantes ricocheteando intensamente entre seu cérebro, peito e seu estômago, passando por todo seu corpo. Tudo bem sentir dor e ressentimento de forma que só pode ser descrita como um estado perpétuo de afogamento. Tudo bem se sentir insólitx e perdidx. Tudo bem sentir esse carrilhão caótico em sua totalidade, pois não há nada mais natural que isso e não há nada mais necessário para se seguir adiante. Não há nada mais transformador que isso.


Pois a verdade é que somos todos tortos por definição, cada um à sua maneira. Somos todos inconstantes, inseguros, insanos e idiossincráticos, em diferentes capacidades, configurações e níveis de intensidade. Mas também somos cheios de sonhos, paixões, afetos e perspectivas a serem empregados de forma construtiva. E é justamente nossa capacidade de nos levantarmos de duras quedas a partir de nossas potências e nossa capacidade de refletir, internalizar e ressignificar que nos dá força e nos faz evoluir. Sendo assim, torno a dizer:


Tudo bem se sentir assim, pois somos apenas pessoas em toda nossa imensidão e fragilidade. E, não importa a dimensão do que passamos ou do Horror que nos acomete, somos senhorxs das nossas sinas e das nossas trajetórias. Ontem, agora e sempre, somos capitães das nossas almas.

Guilherme Guio
Guilherme Guio
Publicitário por formação, especialista em Comunicação Corporativa e Inteligência de Mercado, é o editor e redator principal do RTC. Atuando como consultor de Marketing Cultural, resolveu dar vazão aos seus arroubos verborrágicos através deste projeto. Também é tabagista compulsivo, cinéfilo inveterado, adepto de audiófilo e dançarino amador vergonhoso nas horas vagas.

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