5 DISCOS #14

A série 5 DISCOS é uma forma de apresentar ao público alguns álbuns e compactos lançados que foram considerados dignos de nota pela edição do Road To Cydonia.

Misturando estilos e sonoridades, a lista tem como intuito a difusão das composições de grupos e artistas de forma econômica e direta, assim como incentivar a troca de informações sobre talentos que têm dado as caras nos últimos tempos. Sem mais delongas, vamos à décima quarta edição:

FEIO EP (Feio, 2026)

Registro que inaugura a trajetória do grupo capixaba Feio, este EP epônimo pode ser descrito como um cartão de visitas que estabelece a sonoridade bombástica e o espírito hiperativo de seus autores de maneira crua, energética e clara. Trazendo quatro faixas que cruzam 10 minutos de duração de maneira extremamente ágil, esse compacto surge como verdadeiro um ataque-relâmpago, capturando o ouvinte com passagens calcadas na mistura de punk com fortes pinceladas de surf music e rockabilly que não deixam espaço para respirar e transbordam energia desde o riff inicial da faixa de abertura (Terminal) até a conclusão da última faixa (Mental Demolition).

Contando também com duas passagens que trazem um bem-vindo espírito dançante (a faixa-título e House Music, a melhor do registro) e servem como contraponto à porradaria das faixas de abertura e encerramento, FEIO EP é um compacto cativante em sua natureza incisiva e vigorosa que não reinventa a roda (e nem se propõe a isso), mas causa forte impressão e deixa uma sugestão dos caminhos a serem tomados pelo quinteto. Um ótimo ponto de embarque para aqueles que desejam entrar numa vibe de som movido a guitarras nervosas, bateção e ansiedade.

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DECADENCE (Colt Cobra, 2026)

É sempre interessante quando uma banda com uma sonoridade bem estabelecida decide abraçar uma nova direção criativa e lançar uma obra que a reconceitua enquanto projeto artístico ao mesmo tempo que preserva sua base estrutural, como ocorre com este DECADENCE. Lançado quatro anos após o divertido Fuzzy and Cozy, o quarto disco do Colt Cobra chama a atenção pela maneira com que concilia um 180 graus estilístico com a continuidade de algumas características vistas em seus predecessores, representando não apenas uma verdadeira virada de chave para seus autores em forma e conteúdo, como também um novo horizonte musical a ser explorado.

Trazendo oito faixas que beiram meia-hora de duração, este LP troca o Raw Dirty Blues que define os três álbuns anteriores por um Goth Rock retrô altamente evocativo (vide Soul on Fire) que desloca o Colt Cobra do plano do Flat Duo Jets para um universo mais próximo de Joy Division e Smiths de maneira inequívoca (vide Beneath the Surface, Set Me Free e Dark Spirits). Substituindo a aspereza do lo-fi por uma abordagem estética que investe pesadamente em ambiência e exploração de efeitos para construção de uma onda etérea que preserva o power trio como eixo fundamental (vide Requiem e Meant to Be, a melhor do disco), Decadence acaba se configurando como um exercício de gênero que consegue o feito de soar diferente sem perder o DNA do trio vilavelhense. É uma guinada audaciosa que vem como recomendação por causar mais curiosidade que estranhamento e mostrar um grupo que se arrisca a encontrar formas diferentes de fazer as pessoas dançarem.

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ATROX II EP (Atrox, 2026)

Segundo EP do duo vilavelhense e sucessor do compacto lançado em 2023, este ATROX II pode ser descrito como um bombardeio sonoro implacável de precisão e severidade equivalentes. Dobrando a aposta no entrosamento existente entre o vocalista/baixista Pedro Moscardi e o baterista Ruan Reis para resgatar todos os elementos que tornaram o registro anterior marcante, Atrox II se mostra um passo evolutivo pelo jeito focado com que o duo avança no desenvolvimento de sua sonoridade, conseguindo equilibrar coesão e proficiência técnica com um senso de brutalidade absurdo.

Composto por cinco faixas que abarcam quase 20 minutos de duração, Atrox II retoma o desert stoner orientado por riffs de seus autores com um novo nível de apuro técnico para fundamentar passagens que se mostram homogeneamente parrudas da primeira (a ótima Drops) à última track (Without You) e entremeiam respiros minuciosamente calculados com uma pressão massacrante (Victim of My Life e Give Up, a melhor do compacto). O resultado final é um trabalho curado que cobra um preço energético patente e pode ser extenuante para alguns, mas recompensa o ouvinte com uma experiência inegavelmente potente. Recomendado para ouvir com bons monitores e volume alto para tomar um belo baque.

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LAPRASEMPRE EP (Srta Karen, 2026)

Outro EP de estreia presente nessa lista, este LAPRASEMPRE figura não apenas como o primeiro registro estendido da banda Srta Karen, como também simboliza uma empolgante geração de nomes surgidos no contexto pós-pandêmico que exploram universos sonoros relativamente escassos em seu circuito (similar à magnífica Bad Feels Club), evidenciando tanto uma visão lateral quanto uma bem-vinda evolução do entorno. E vale notar que essas características, por mais importantes que sejam, se mostram complementares diante da caracterização clara e entrega pungente aqui vistas.

Computando a mistura de rock alternativo, shoegaze e pinceladas de dream pop do quarteto em cinco faixas que cobrem curtos 20 minutos, Laprasempre é um trabalho definido por sua visceralidade e verdade emocional, as quais se mostram patentes desde o primeiro verso da faixa de abertura (A Casa de Libra, a melhor do registro) e se costuram com a estética de tonalidades noise que domina o EP por toda sua duração (vide Habitat e Lúcida). Amparado por letras profundamente emocionais (e, por vezes, angustiadas) e por um espírito noventista, este compacto é um cartão de visitas honesto e direto que declara a proposta da banda com parâmetros admiravelmente claros, valendo a conferida por conta disso.

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TERRA (Bujiu, 2026)

Trabalho de estreia do quarteto Bujiu, este TERRA é, na falta de um termo melhor, um abismo em forma de disco. Composto por nove faixas que registram uma sonoridade stoner com fortes ecos de grunge calcada em arranjos coesamente estruturados, guitarras dropadas, timbres cavernosos e um senso pervasivo de profundidade, este LP apresenta ao ouvinte uma jornada de 32 minutos impiedosos em sua densidade e gravidade. Desde sua abertura afiada (Navalha, no pun intended) até a coda de encerramento (a desconcertante A Vela), Terra é um álbum que cruza níveis sucessivos de inquietação baseada em distorção (vide Três, a faixa-título e Lodo) de modo a propiciar uma experiência constantemente instigante que jamais deixa o ouvinte se acomodar.

E é neste detalhe que reside a sagacidade deste registro e seus autores: Ao estimular consistentemente o ouvinte com camadas persistentes, mas cuidadosamente medidas, de amplitude, dissonância e efeitos, Terra é um disco que usa seu peso colossal como uma forma de promover imersão. E a maneira com que o disco ocasionalmente quebra o próprio fluxo (vide A Queda, O Fim e O Avesso, a melhor do álbum), evidencia não apenas sua construção meticulosa, como colabora para oferecer uma sintonia muito particular e estranhamente reconfortante (imagine meditar em meio a um mosh pit). O resultado final é um disco feito com apuro e execução espartana que traz a proposta rara de induzir um transe justamente pela sobrecarga que promove. E isso por si só já é mais que suficiente para justificar uma recomendação.

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