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Qual é o seu Som?

 

Neste segundo artigo após o relançamento do RTC, falamos sobre o trabalho em torno da definição conceitual da sonoridade de uma banda ou artista.


Em algum momento de suas carreiras, toda banda ou artista autoral já se deparou com um questionamento que surge recorrentemente de diferentes maneiras: o famoso “Que tipo de som você faz?”. Frequentemente realizada com maior ou menor grau de especificidade e interesse por público, veículos de comunicação e espaços de divulgação, essa é possivelmente a pergunta inevitável para qualquer autor de projetos musicais. E embora seja bem reducionista e particularmente difícil de responder em muitos casos, o fato é que sua definição não deixa de ser imprescindível tanto para que o autor consiga caracterizar seu trabalho quanto para ajudar o público a se situar. Sendo assim, o foco deste texto prosaico será justamente a importância da definição conceitual de uma sonoridade.

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Primeiramente, uma ideia bem simples: Atualmente, vivemos num contexto bem complexo no que se refere ao consumo musical. Com o advento da Internet, das mídias sociais e das plataformas mobile, há tanto uma proliferação massiva de bandas, sonoridades e canais de veiculação disponíveis como ainda há uma mudança substancial no tempo e na forma com que o público tem escutado música. Se há 30 anos atrás, o ouvinte tirava um momento para se concentrar inteiramente naquela atividade, hoje em dia tal exercício tem se mostrado cada vez mais raro por conta do caráter secundário em que a experiência musical tem sido encaixada, se tornando quase um complemento para atividades cotidianas que se desdobram em intervalos cada vez menores.


Quando somamos esse fato à facilidade de acesso que se tem à música (YouTube, Soundcloud, Spotify, sem contar os inúmeros blogs e sites que possibilitam downloads ou streaming), surge uma constatação básica: Fazer com que o ouvinte médio descubra e conheça novas sonoridades de forma mais profunda tem se tornado um esforço cada vez mais complicado, com um grau de dificuldade aumentado pelo fato de que este mesmo ouvinte tem estado cada vez menos propenso a se apegar com intensidade a alguma banda em particular.


Sendo assim, é cada vez mais necessário que bandas e artistas autorais emergentes tenham um conceito claro para o som que fazem, visto que essa descrição será fundamental tanto para caracterizar o trabalho na mente do ouvinte como servirá ao propósito de ajuda-lo a compreender de antemão o que se pode esperar. Dessa forma, características como estilo, influências e componentes musicais que constituem o som servirão como um norteador que imediatamente dará uma imagem mental que virá a ser usada como um filtro na hora de direcionar (ou não) a atenção para uma banda. A partir dessa noção e da visão de como que a cena musical tem se estruturado atualmente, traçamos uma relação de pequenos toques na hora de montar a definição do som de um projeto do gênero. Confira abaixo:

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1. SAIBA QUAL É A SUA TESE


Todo projeto tem uma tese. Uma proposição ou ideia que será apresentada ao público com uma estruturação e um objetivo central. No caso de um projeto musical, essa proposição é a sonoridade em si, a qual é criada seguindo uma visão específica e pode ou não estar atrelada a demais aspectos (como no caso do Daft Punk, que usa componentes visuais e as máscaras para criar um espetáculo e ater o público ao som). Essa tese pode variar desde concepções mais vagas como “fazer um som com que nos identificamos dentro de nossas influências” e “tocar um (estilo) de qualidade” até mais complexas como “mesclar estilos completamente diferentes” (vide a fusão de Hip Hop com Jazz) e “explorar linhas melódicas pouco convencionais dentro de um estilo”.


Vale ressaltar que a tese pode se adaptar ao longo do tempo (como no caso do Arctic Monkeys e do Radiohead, os quais transformaram sua sonoridade com cada disco lançado), mas, de qualquer maneira, é sempre importante constantemente saber O QUÊ está sendo feito com o som e POR QUÊ, indicando onde se quer chegar nesse processo.



2. CONHEÇA O SEU SOM


Esse ponto soa meio óbvio, mas não é. Frequentemente, vê-se artistas que não sabem descrever sua sonoridade, e isso pode gerar uma dificuldade substancial na hora de apresenta-la para o público. Por isso, é necessário entender o que forma o seu som, quais são os elementos preponderantes que tem potencial para serem atrativos, sejam estes facilmente perceptíveis (linhas melódicas, harmonias, efeitos, uso inusitado de instrumentos, nível de técnica, etc.) ou mais subjetivos (o clima da música, as alusões que se pode fazer a partir desta, o caráter energético, etc.).

Quando pontuados, tais elementos aumentam as chances de engajar o ouvinte, visto que este terá algo para prender sua atenção e apreciar o conjunto da obra por um método quase indutivo. Ou seja, tão importante quanto saber explicar o quê é o som e as razões pelas quais está sendo feito é saber explicar COMO e a partir daí, direcionar a atenção para seu diferencial.

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3. MANTENHA SEU PÚBLICO EM MENTE



Por mais que o sonho utópico de todo artista seja que sua obra atinja multidões e seja apreciada por todos, a realidade é que jamais será (há aqueles que REALMENTE não gostam de Beatles, para se ter ideia). E por mais que a ideia de lançar o som para o mundo seja muito bonita (e necessária), a realidade é que existe um perfil específico de ouvinte que apreciará melhor o trabalho.


Sendo assim, é necessário reconhecer que qualquer projeto musical é direcionado para um público específico (a abrangência desse público depende da natureza e da complexidade do projeto), o qual pode ser descrito através de gostos semelhantes com os da banda. Obviamente, há públicos inusitados que podem abraçar o trabalho, mas também é necessário saber PARA QUEM que o som é feito e ter a mínima ideia de qual é esse tipo de ouvinte.



4. SAIBA EMPREGAR SUAS INFLUÊNCIAS



Todo projeto musical tem influências, e esse é um fato. Até por uma questão de formação cultural e background, é virtualmente impossível vermos artistas que não tenham se inspirado em outros trabalhos artísticos para conceberem seus próprios. Da referência velada ao plágio descarado, fontes de inspiração são primordiais no mundo artístico e representam um pilar crucial no processo de caracterização, assim como no trabalho de descobrimento por parte do público. Tendo isso em mente e a noção de que a grande questão aqui é saber a medida exata em que as influências vão ajudar a ilustrar o trabalho ou vão acabar confundindo as coisas, a dica neste ponto é: saiba apontar apenas os elementos de cada influência que efetivamente se manifestam na sua sonoridade.


A partir do momento em que traços musicais específicos que serviram de inspiração (os riffs secos e acelerados do QOTSA, a guitarra do John Frusciante, o estilo de vocal do Eddie Vedder, etc.) são pontuados, se torna ainda mais fácil a formulação de uma imagem mental e o risco de se dar uma miríade vaga de influências que acabam não explicando nada diminui substancialmente (e não são raras as bandas que dizem se inspirar em sonoridades tão díspares quanto Rolling Stones, Slayer, Sublime e Joy Division).

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5. ESQUEÇA O "FAZEMOS NOSSO PRÓPRIO SOM"



Músicos adoram atestar a própria autenticidade, e isso é tão natural quanto compreensível. O grande problema está no fato de que falas como a supracitada “Fazemos nosso próprio som” se mostram tanto falsas quanto contraproducentes (além de vagas). De fato, a partir do momento em que se faz um som autoral, se faz o tal “som próprio”, e há MUITO espaço para a originalidade aí. Mas, considerando o contexto atual da cena musical, o fluxo de influências e a gama grotesca de sonoridades que orbitam por aí, é praticamente um fato que a maioria esmagadora destas não é nem tão única e nem tão “pura” como seus membros apregoam.


Além disso, esse tipo de discurso simplesmente não funciona com o público médio, o qual se revela passivo e relutante demais para gastar seu tempo (e dinheiro) descobrindo sonoridades sem nenhum lastro norteador. Ou seja, esqueça o discurso vago auto-afirmativo e ajude o ouvinte a navegar seu som. Eventualmente, o próprio chegará à conclusão do quão único seu som é e se vale ser acompanhado ou não.



6. SUPERE O REDUCIONISMO


Outro ponto que frequentemente irrita autores musicais ao redor do mundo é o fato de como suas sonoridades são rotuladas e encaixadas em estilos (gerando termos guarda-chuva como Rock Alternativo e Eletrônico) e descrições incrivelmente rasas como forma de divulgação (especialmente por veículos de comunicação). A dica nesse ponto é: não se estresse tanto.


O reducionismo pode ser prejudicial, sim, mas ainda é um mal necessário e não é necessariamente um elemento determinante para a atuação do artista. A realidade é que, como ainda há uma carência substancial de tempo, espaço e definição para apresentar tais sonoridades, tais veículos (ou até mesmo o público) se referem de forma vaga a eles como uma forma de disseminar a ideia da forma mais prática e sintética o possível.


Dessa forma, mais do que se revoltar com a forma com que tais veículos descrevem sua sonoridade, é fundamental interpretar esse movimento como a forma de contato mais primária e rasa que o ouvinte terá com seu trabalho. O resto depende da apresentação da própria banda.

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Por final, vale frisar que não existe uma fórmula específica para lidar com esse tipo de questão, uma vez que estamos discutindo um tema que frequentemente vira a contrabalancear uma visão objetiva/analítica com a sensibilidade artística. Mas, de toda maneira, que a visão disponibilizada aqui sirva como uma forma de instigar reflexões e discussões acerca do tema. E que os leitores que tenham algo a dizer sobre assunto participem, enviando suas opiniões para o RTC. Até a próxima.

Guilherme Guio
Guilherme Guio
Publicitário, especialista em Comunicação Corporativa e Inteligência de Mercado, é o editor e redator principal do RTC. Atuando como consultor de Marketing Cultural na produtora cultural SERENA (da qual é sócio), resolveu dar vazão aos seus arroubos verborrágicos através deste projeto. Também é tabagista compulsivo, cinéfilo inveterado, adepto de audiófilo e dançarino amador vergonhoso nas horas vagas.

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