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Resenha: BADLAND EP (Bad Feels Club, 2022)

 

Em seu primeiro compacto, o Bad Feels Club mistura visceralidade, potência e um vasto arcabouço de influências para materializar um cartão de visitas de força e autenticidade inequívocas, consolidando sua posição como um grupo incrivelmente promissor com o ótimo Badland EP. (ARTE DA CAPA: Amanda Miranda / FOTO DA CAPA: Melina Furlan)


É sempre fascinante quando um grupo ou artista incipiente consegue empregar suas referências e ideias de maneira clara e bem-amarrada desde o início, permitindo a compreensão de sua proposta sonora com um senso simultâneo de referência e inventividade, como ocorre com o Bad Feels Club.


Desde que surgiu no final dos anos 2010 com uma série de apresentações marcantes nas festas da antológica produtora Antimofo, o conjunto vem ganhando campo e se consolidando como um dos exemplares mais pungentes e distintivos em atividade no atual circuito independente capixaba por conta de sua mistura de estética marcante, sonoridade híbrida e entrega explosiva tanto em seus registros quanto em suas apresentações.


Tendo dado uma amostra de seu potencial com um excelente single de estreia (Wasted Lands) e posteriormente registrado sua energia visceral nos palcos com uma performance no programa CASA BRAVO, o BFC agora dá um passo definitivo em sua trajetória ao lançar BADLAND, compacto de quatro faixas que não apenas dá uma visão panorâmica de seu universo musical, como o coloca categoricamente no grupo seleto de projetos musicais altamente promissores a darem as caras nos últimos cinco anos.

 

Produzido pela própria banda ao lado de Breno Vazzoler ao longo de 2021 e projetado como um EP clássico de dois lados (a primeira metade se revela mais dinâmica enquanto a segunda se mostra mais soturna), Badland imediatamente chama a atenção pela maneira resoluta e instigante com que distingue suas quatro faixas dentro de concepções claras e caracterizações bem delineadas, calcando-as fortemente em campos de referência muito específicos.



Enquanto a frenética Cinnamon abre a audição se enquadrando na estética emo contemporânea ao mesmo passo em que evoca as raízes pós-hardcore oitentistas do gênero, a divertidíssima Bloody Sucker Blues mergulha diretamente no Garage Rock que dominou o início do século XXI em sua crueza e derivações, fazendo referências vocabulares precisas a uma miríade de sub gêneros (como o Punk Blues do White Stripes e o indie suíngado do Arctic Monkeys) num verdadeiro passeio estilístico repleto de easter eggs.


E vale ressaltar que esta lógica contrastante e hiper-textual se mantém de forma pungente mesmo na parte mais leve do registro, visto que, enquanto a melancólica Little Seagull abraça as texturas mais solenes do post-Britpop (vide Keane e Snow Patrol), a magnífica As We Flow parece ter saltado diretamente dum disco de rock alternativo dos anos 90 (mais precisamente, Siamese Dreams, do Smashing Pumpkins).


O resultado final é um trabalho inventivo e dotado de evidente verdade emocional que não apenas evita a cilada de ruir sob o peso da própria necessidade de auto-afirmação e de todas as referências, como se beneficia imensamente destas últimas pela maneira honesta e parcimoniosa com que as emprega para construir uma linguagem própria. E isso por si só já é uma prova do talento e da inteligência de seus autores.



 

Registrado de modo a novamente expor um grupo bem-integrado e confortável, este compacto também mostra um senso de arranjo e dinâmico diferenciado por parte de seus autores: Enquanto a cozinha formada pelo baixista Vinicius Carvalho e pelo baterista Laio Masruha criam bases sólidas e calculadamente pulsantes para paisagens sonoras altamente díspares, a guitarra lead de Guilherme Cavassa preenche tais espaços com linhas e timbres cirurgicamente precisas que surpreendem pela versatilidade.



Por final, o vocalista Enzo Salviato registra devidamente sua espontaneidade (vide Bloody Sucker Blues) e sua intensidade característica por meio de interpretações que não apenas traduzem a carga emocional de suas composições com profundidade, como também ilustram sua entrega irrestrita de maneira irrefutável (e aqui friso novamente As We Flow, a melhor do registro).

Habilmente realizado, autêntico e, acima de tudo, cativante, este Badland é um trabalho admirável em sua coesão e honestidade que não apenas comprova o potencial de seus autores, como também dá sinais claros dum futuro potencialmente brilhante à frente. É um registro viciante que certamente servirá de trampolim para o Bad Feels Club e que deve ser abraçado não apenas como um estímulo, mas como um EP autossuficiente que merece ser escutado no repeat.

 
 
Guilherme Guio
Guilherme Guio
Publicitário por formação, especialista em Comunicação Corporativa e Inteligência de Mercado, é o editor e redator principal do RTC. Atuando como consultor de Marketing Cultural, resolveu dar vazão aos seus arroubos verborrágicos através deste projeto. Também é tabagista compulsivo, cinéfilo inveterado, adepto de audiófilo e dançarino amador vergonhoso nas horas vagas.

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