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Resenha: Ômega III (Sara Não Tem Nome, 2015)

 

Em seu primeiro disco, Sara Não Tem Nome dá uma amostra clara da sua voz artística e realiza um eficiente cartão de visitas movido a angústia, desolação e expressividade com o soturno Ômega III.


Quando surgiu na rede com um apanhado de registros rudimentares que traziam canções sensíveis e catárticas em medidas iguais, a cantora e compositora mineira Sara Não Tem Nome já se mostrava dona de um trabalho bem particular por conta de sua sonoridade expressiva que mistura melancolia, cinismo e inquietude de forma singular (imagine uma fusão da solenidade resignada do Beck da fase Sea Change com o espírito sofrido de Daniel Johnston). Agora, após diversas idas e vindas em sua curta carreira e um longo processo de incubação, a artista mineira dá sinais claros da dimensão de seu potencial com seu primeiro LP e surpreende com o intenso Ômega III..

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Produzido pela musicista ao lado de Julito Cavalcante e gravado por Rodrigo “Funai” Costa no Red Bull Studios SP, este disco de estreia se mostra admiravelmente bem-sucedido em seu propósito de ampliar o universo musical de sua autora sem comprometer o caráter introspectivo de suas composições. Imbuindo o Folk característico de Sara com uma forte carga psicodélica, o disco conta com doze faixas que trazem paisagens sonoras bem diversificadas ao mesmo passo em que mantém a voz e o violão da cantora como força-motriz, formando um trabalho imersivo, bem arranjado e de concepção visivelmente inteligente.



Abordando uma gama de ideias complexas e universais (como isolamento emocional, desilusão, depressão, abandono e desumanização), Ômega III também surpreende por conta de sua ambição temática e coragem em confrontar questões sombrias de forma direta e confessional. Da perturbadora faixa de abertura (Dias Difíceis, cuja levada suave e edificante se contrapõe de forma quase sarcástica à letra) até sua conclusão fatalista (We Were Born Dead, que fecha o disco numa rima temática elegante e impactante), o álbum se mostra paradoxalmente empolgante e angustiante ao expor gradativamente a desgastante jornada psicológica de uma protagonista que tenta se situar num universo caótico (Páscoa de Noel) e que luta para evitar um destino de fracasso e desolação (Ajude-Me e Queda Livre) motivado por seu próprio niilismo (vide Carne Vermelha, a melhor faixa do disco). E o fato de que boa parte das faixas aqui vistas foram inspiradas na adolescência de Sara (a qual começou a compor com quinze anos) enriquece a experiência quando contrastado com as possíveis leituras da obra e com o peso das letras.


 

Beneficiado por uma banda de apoio afiada que, além do próprio Cavalcante, traz os músicos Gustavo Athayde, Hafa Bulleto e Daniel Fumega construindo uma base sólida ao longo de toda a tracklist, o disco de fato se faz na contraposição entre as texturas e timbres precisos com a voz suave de Sara. Vale ressaltar que esta última assume a condição de elo central do álbum com entrega total, conseguindo explorar diferentes nuances em suas interpretações (Atemporal, Grandma I Love You So e a faixa-título) e evitando a cilada de se tornar monocórdia e/ou repetitiva através da dicotomia entre sua jovialidade e a fragilidade inerente que implica um universo de mágoas e emoções reprimidas.


 

Sombrio, denso e brutalmente honesto, Ômega III é um trabalho feito com alma e que serve como uma eficiente carta de apresentação para sua autora enigmática e um bem-vindo contraponto aos diversos exemplares que vêm se repetindo dentro deste gênero. Enquanto isso, vale apenas aguardar um próximo trabalho e acompanhar com atenção a trajetória desta artista que promete gerar frutos cada vez mais viscerais e interessantes.


 
Guilherme Guio
Guilherme Guio
Publicitário, especialista em Comunicação Corporativa e Inteligência de Mercado, é o editor e redator principal do RTC. Atuando como consultor de Marketing Cultural na produtora cultural SERENA (da qual é sócio), resolveu dar vazão aos seus arroubos verborrágicos através deste projeto. Também é tabagista compulsivo, cinéfilo inveterado, adepto de audiófilo e dançarino amador vergonhoso nas horas vagas.

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