fundo parallax

Resenha: COROA EP (Alinne Garruth, 2021)

 

Em seu compacto mais recente, a cantora e compositora ALINNE GARRUTH investe na delineação e na densidade de sua sonoridade híbrida para aprofundar sua musicalidade caleidoscópica de forma sucinta e contundente, atestando categoricamente seu senso de identidade artística com o potente COROA. (CAPA: Melina Furlan)


Parte da promissora leva de grupos e artistas que têm dado as caras no Espírito Santo no início dos anos 2020, Alinne Garruth se distingue entre seus pares por conta de sua persona vibrante e sua sonoridade despojadamente híbrida. Misturando Pop, R&B, Hip-Hop, Música Latina e Beats dentro de uma linguagem que flerta pesadamente com a MPB, a cantora e compositora tem seu maior diferencial em sua mescla de visceralidade, voracidade e vocabulário, os quais são empregados para criar um trabalho que habita um espaço de intersecção entre o experimentalismo e a acessibilidade. Tendo lançado um apanhado de singles e um EP (Abre Alas, lançado no ano passado), a capixaba agora retorna com Coroa, compacto que não apenas aprofunda seu universo sonoro como dá contornos claros à sua identidade artística de maneira expressiva e cativante.

fundo parallax
 
 

Realizado como parte do projeto de residência artística Delta e co-produzido pela musicista ao lado de seu parceiro recorrente, Leonardo Chamoun, e do produtor musical Rodolfo Simor no núcleo Bravo LAB., este EP imediatamente se distingue de seu predecessor ao trocar a construção mosaical de Abre Alas por uma abordagem conceitual: Da edificante faixa de abertura (Encontro Entre Deus e o Diabo) até sua conclusão (a pulsante faixa-título), Coroa traz a busca por definição pessoal e pela própria potência como fio condutor temático, servindo simultaneamente como uma declaração e como um auto-exame por parte de sua autora.



Encadeando quatro paisagens sonoras altamente distintas entre si, mas homogeneamente enxutas (a média de duração das faixas gira em torno de dois minutos e meio), Coroa também chama a atenção pela maneira focada e energética com que registra e expande o extenso leque de influências e referências de Garruth, retomando a mistura estilística que caracteriza seu trabalho de maneira organicamente evolutiva, adentrando campos antes inexplorados ao mesmo passo em que preserva elementos previamente estabelecidos (como o forte lastro percussivo e o senso de latinidad). O resultado final é uma obra que amplia a sonoridade de sua autora ao mesmo passo em que estreita seu foco, num movimento de amadurecimento artístico patente.



 

Revelando uma crescente ambição artística e um maior aprumo na concepção das faixas, este compacto também se revela uma obra que constantemente cria uma contraposição interessante entre densidade e dinamismo, imbuindo todas as canções com uma estética multinivelada (é possível reconhecer os lastros estilísticos, mas há sempre muito mais a ser notado) e uma urgência que se moldam admiravelmente bem à proposta de cada composição. E aqui vale frisar a instigante Tudo ou Nada (a melhor do registro), a qual traz uma forte carga de ansiedade que contrasta de maneira fantástica com seu arranjo compassado (e é aqui que a inventividade e o raciocínio lateral de Simor se mostram claros, assim como seu característico timbre de guitarra).




Bem-sucedido ao conseguir materializar sua proposta temática nas performances de sua autora, Coroa registra Garruth em um momento de maior desenvoltura como letrista e intérprete. Abraçando o desafio inerente a encabeçar um trabalho tão multi-facetado com conforto, Garruth incorpora personas vocais distintas e transita entre momentos de maior tensão (a supracitada Tudo ou Nada) e leveza (a radiofônica Cara) com naturalidade e um bem-vindo senso de desapego.




Incrivelmente curto, honesto e estimulante, Coroa é um compacto que cumpre seu propósito com elegância e competência, servindo como um ótimo passo à frente para Garruth ao mesmo tempo em que abre novas possibilidades para sua sonoridade de maneira inequívoca. Vale a pena imergir por algumas vezes. Afinal, nem sempre alguém consegue passar um recado tão claro como este em 10 minutos.

 
 
Guilherme Guio
Guilherme Guio
Publicitário por formação, especialista em Comunicação Corporativa e Inteligência de Mercado, é o editor e redator principal do RTC. Atuando como consultor de Marketing Cultural, resolveu dar vazão aos seus arroubos verborrágicos através deste projeto. Também é tabagista compulsivo, cinéfilo inveterado, adepto de audiófilo e dançarino amador vergonhoso nas horas vagas.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.