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Resenha: Phenomena
(Ema Stoned, 2019)

 

Com o surpreendente PHENOMENA, o grupo paulistano Ema Stoned cruza a fronteira do segundo disco num momento cabal de sua trajetória e reatesta suas potencialidades com uma demonstração ambiciosa e expansiva de dinâmica, fluidez e pathos. (FOTOS: Oswaldo Corneti)


O Ema Stoned sempre foi um exemplar curiosamente característico em meio aos inúmeros grupos experimentais que povoam o circuito independente nacional. Com uma abordagem que pretere arranjos exuberantes, dissonância deliberada e preciosismo técnico em prol da concepção de climas particulares e homogeneamente intensos para suas faixas, o grupo paulistano se distingue de seus pares ao desenvolver uma sonoridade calcada na consonância existente entre seus membros e no senso de “transe coletivo” que permeia suas composições (e que remete fortemente à magnífica Hurtmold). Agora, quase seis anos após o lançamento de seu excelente disco de estreia (Gema, de 2013), o grupo retorna com PHENOMENA, registro que não apenas retoma as características mais preponderantes de sua sonoridade e metodologia como eleva sua produção a um novo patamar.

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Produzido pela baterista Jéssica Fulganio (a qual também assume a arte gráfica e tem este registro como sua despedida do projeto) e gravado em meio a sessões de improviso livre no Estúdio El Rocha (SP), este novo registro imediatamente chama a atenção por sua estrutura diferenciada e seu caráter deflexivo: Trazendo seis atos que diferem substancialmente em duração e estética (há ecos vindos de todas as partes, do jazz ao noise), o disco apresenta longas passagens viajandonas que são uniformemente marcadas por crescendos vagarosos, contrapontos marcantes e variações precisas na dinâmica, apresentando um exercício criativo e catártico que traz um bem-vindo senso de imprevisibilidade e exploração sonora ao longo de seus quase 80 minutos de duração.



Além disso, o disco também impressiona pela forma com que consegue imbuir seus movimentos com uma mistura altamente improvável de extravagância e comedimento, conciliando as extensas sobreposições de timbres e camadas com linhas melódicas e rítmicas sempre claras que não permitem que as faixas se tornem sobrecarregadas ou intransponíveis para o ouvinte (vide o colossal Act II). O resultado final é uma obra repleta de momentos que se equilibram entre a digressão e a imersão com habilidade e peso admiráveis.

 

Trazendo seis atos que diferem substancialmente em duração e estética, o disco apresenta um exercício criativo e catártico que traz um bem-vindo senso de imprevisibilidade e exploração sonora ao longo de seus quase 80 minutos de duração.

 

Trazendo novamente o trio original ao lado do nipônico Makoto Kawabata (Acid Mothers Temple, também colaborando com synths aqui) e Douglas Leal (Yantra, DEAF KIDS) numa formação expandida, o disco se revela imensamente beneficiado pela presença dos guitarristas adicionais, os quais conferem volumes de densidade a cada passagem (vide o Act V) e demonstram conforto ao se integrarem na linguagem do grupo. Porém, é fato que a grande força do registro reside mesmo na tríade formada por Fulganio, pela baixista Elke Lamers e pela guitarrista Alessandra Duarte, as quais se revelam no auge do entrosamento e do exercício de uma linguagem musical que soa altamente versátil e profundamente íntima ao mesmo tempo (vide o Act IV, o qual remete ao Mars Volta da fase Amputechture).



 

Esparso, elegante e estranhamente edificante, Phenomena é um registro ambicioso e corajoso que revela não apenas a força do Ema Stoned enquanto conjunto criativo, mas a abrangência de sua expressividade e da sua sensibilidade. E que este registro sirva não apenas como testamento de sua singularidade no universo independente, mas como mais um marco numa trajetória que cada vez mais fascinante de se acompanhar.

Guilherme Guio
Guilherme Guio
Publicitário, especialista em Comunicação Corporativa e Inteligência de Mercado, é o editor e redator principal do RTC. Atuando como consultor de Marketing Cultural na produtora cultural SERENA (da qual é sócio), resolveu dar vazão aos seus arroubos verborrágicos através deste projeto. Também é tabagista compulsivo, cinéfilo inveterado, adepto de audiófilo e dançarino amador vergonhoso nas horas vagas.

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